Blog francês cria série de vídeos espontâneos e únicos, gravando apresentações de bandas na rua, em bares e em apartamentos

Músicos do The Shins gravam vídeo no meio da rua, em Paris
Andar pelas ruas da sua cidade e passar pelos músicos do The Shins tocando ao ar livre, sem microfones e amplificadores, não é uma cena nada comum. Parece ainda mais improvável se espremer em um elevador junto com nove músicos do Arcade Fire, enquanto a banda toca uma versão singular de Neon Bible.
No mundo dos franceses do La Blogotheque, esse tipo de coisa costuma acontecer com freqüência. Os responsáveis pelo site criaram há pouco mais de dois anos o projeto Concerts à Emporter – uma série de video podcasts com apresentações musicais gravadas ao vivo, no meio da rua, em cafés ou em qualquer outro lugar. O resultado são performances um tanto excêntricas, em condições e ambientes únicos.
Arcade Fire – Neon Bible & Wake Up (Concerts à Emporter)
Foi exatamente esse o resultado que os blogueiros franceses obtiveram quando colocaram em prática o devaneio louco de gravar um desses vídeos com os canadenses do Arcade Fire. A apresentação foi tão excêntrica quanto a própria banda: os músicos batucavam no teto do elevador da casa de shows Olympia, em Paris, e faziam uma espécie de percussão rasgando as páginas de uma revista.
“A cada semana, um artista ou grupo é convidado a tocar no meio da cidade, em um bar ou em um apartamento, sem montagem estética e com um som bruto. A intenção é capturar o instante, gravar a música como ela sai, sem preparação, sem artifícios”, explicam os criadores do projeto.
E se a naturalidade é a regra, o Arcade Fire deu um banho nesse quesito. Para a segunda canção, banda saiu do prédio e tocou para a multidão que esperava diante de uma das salas de espetáculos mais tradicionais da capital francesa. O vocalista Win Butler cantava com a ajuda de um megafone e o público acompanhava, em coro, o “ô-ô-ô” da introdução de Wake Up. Mais desplugado, impossível.
Na era dos iPods e dos celulares com MP3 e vídeo, ouvir a sua música favorita em qualquer lugar é uma tarefa quase cotidiana. Para os blogueiros do La Blogotheque, a intenção dos Concerts à Emporter é permitir que você possa assistir a um show da sua banda favorita onde quer que você esteja – e como se eles estivessem lá, no meio da rua, na mesa de um bar ou dentro do seu ônibus.
Vampire Weekend – Mansard Roof (Concerts à Emporter)
Em um dos vídeos do site, por exemplo, os quatro músicos do Vampire Weekend se amontoam no banco de trás de uma van com dois violões, um teclado e um ganzá (menos mal) para tocar Mansard Roof enquanto passam pelas ruas parisienses.
O conceito de “shows para viagem” do Concerts à Emporter é algo especial, mas o mérito do projeto transcende a portabilidade e se estende à própria qualidade musical das apresentações. Em outro vídeo, o americano Zach Condon (aquele que responde por Beirut) começa a cantar Nantes caminhando ao lado de um acordeonista e depois se junta a uma pequena orquestra de percussionistas e violonistas e violinistas e outros músicos, que transformam latas de lixo em instrumentos de percussão, como se fosse de maneira espontânea – mesmo que não seja.
O projeto dos blogueiros franceses se tornou tão respeitado que conseguiu a proeza de convocar até os músicos do R.E.M., que gravaram uma apresentação em Atenas, no estado americano da Georgia, berço do lendário grupo de rock alternativo. Mais de 140 gravações estão disponíveis na videoteca. São performances de bandas de estilos diferentes – sobretudo de indie rock - de Jerusalém a Nova York, passando por Bamako, capital do Mali.
Se os mais apocalípticos dizem que a Internet matou ou vai matar o videoclipe, os video podcasts do La Blogotheque podem dar um pouco de ânimo aos artistas. Não é que os Concerts à Emporter vão salvar a indústria do videoclipe – longe disso. Mas os planos-seqüência, o som bruto, a naturalidade e a espontaneidade da música e dos artistas em suas gravações mostram que o YouTube não é a única maneira de se ver a música.
Veja todos os Concerts à Emporter
* Muitos dos textos do La Blogotheque e dos Concerts à Emporter são em francês. Falar a língua não é essencial, mas ajuda.