Na estrada desde 2004 fazendo rock com referências country e folk, o Los Alamos ganhou os palcos da Argentina, da América do Sul e agora se prepara para uma grande turnê na Europa. Extremamente competentes em apresentações ao vivo e no estúdio, o grupo conta ao Subsom como foi sair do mais completo anonimato para grandes festivais em apenas três anos, fala sobre a cena argentina atual e comenta o acidentado mercado da música, além das maiores dificuldades que enfrentaram.
Para muita gente, a produção musical dos nossos vizinhos é quase alienígena, mas a verdade é que o País vem, com alguma freqüência (não tão grande como a nossa) produzindo bandas com muita qualidade sendo o Los Alamos um dos maiores expoentes. Com músicas em inglês e catellano, a banda de Buenos Aires tem elementos de Dylan e Velvet Underground, abusando dos bandolins, guitarras lisérgicas e violões. Me surpreende a visão e a maturidade do grupo – que agora conta com 8 músicos – principalmente no que diz respeito a sua opinião quanto a atual cena sul-americana.
Muito sóbrios, eles ainda não conseguem se sustentar somente com as apresentações (todos ainda mantém seus empregos tradicionais) e criticam a indústria da música no processo de vendagem de discos. Tive a oportunidade de assisti-los no Abril Pro Rock e confesso que foi o show mais arrebatador da noite. E isso numa edição que contou com Mutantes, Nação Zumbi, Lee “Scratch” Perry e The Film, da França. Durante a entrevista, o grupo revelou a intenção de voltar ao Brasil “assim que forem convidados”.
Vocês são uma das bandas mais comentados da música argentina atual. Em 2005, com o debut “No se menciona la soga em casa del ahorcado”, ganharam destaque, saindo inclusive em edições da Rolling Stone. Com o EP “Emboscada”, com versões de Neil Young e Spaceman 3, fizeram diversas apresentações, incluindo shows no Brasil. Agora, um novo disco. Foi tudo muito rápido?
É verdade é que sim, foi tudo muito rápido e estamos muito felizes com tudo o que aconteceu conosco. Ainda mais tendo em conta que muitos grupos demoram bastante para poder ganhar alguma repercussão, como a que conseguimos alcançar e ainda, tendo o apoio de gravadoras. Realizamos tudo sem a ajuda de absolutamente ninguém (somente de nós mesmos e de um trabalho de equipe). Então, me parece que o mérito é ainda maior.
Muitos falam em “narco-country”, bluegrass, folk e space-rock. Agora, como vocês explicam o som do Los Alamos? E sobre o “narco-country”? Há alguma definição para ele?
Los Alamos é uma banda de rock, com várias influências. Tem coisas da música country, folk, algo um pouco mais psicodélico. É basicamente o resultado da união de pessoas que escutam “muita” música. O narco-country é um rótulo que nós mesmos inventamos (um pouco de brincadeira…) para denominar o nosso estilo. A música do Los Alamos é bastante difícil de rotular, então, antes que os jornalistas venham e “inventem” estilos com os quais não estamos de acordo, preferimos inventar um nós mesmos. E a verdade é que deu resultado, porque todos resolveram utilizá-lo e ainda hoje continuam mencionando-o.
Satan Dealers, Tormentos, El Robot Bajo el Água, Coiffer e outras. Como vocês observam a cena argentina de hoje e especialmente o rock tocado no País? O momento é bom? Há lugares acessíveis na Argentina para shows? Creio de deve haver alguma relação com a situação de uma banda que começa no Brasil e não encontra onde tocar…
Com relação às bandas, a cena está crescendo a cada dia. Continuamente aparecem novas bandas. Mas a verdade é que a estrutura (espaços para tocar, gravadoras, governo etc.) não acompanham como deveriam esse crescimento. Cada vez há menos lugares para tocar e as restrições das autoridades são cada vez mais insólitas. Mas dentro dessa situação as bandas se viram como podem para organizar seus shows. Acho que há uma diferença muito grande da nossa situação com a que vimos no Brasil quando fomos para aí, onde há grandes festivais caminhando junto a uma rede de festivais independentes, com patrocinadores importantes e uma grande organização para todo evento relacionado com cultura.
E quanto à música na América do Sul?
Temos contato com gente do Brasil, Chile e Uruguai, e é bastante gratificante saber que há gente igual a nós, trabalhando da mesma maneira e com quem compartilhamos uma grande amizade. Com alguns países o intercâmbio já vem a alguns anos, como no caso do Chile e do Uruguai. Costumamos tocar bastante em cidades dos dois países. Esperamos que comece a acontecer da mesma forma com o Brasil para que possamos fazer shows com mais freqüência por aí. Além disso, na América do Sul temos uma grande desvantagem: tudo demora anos para chegar. Falo de recursos, discos, instrumentos, equipamento, etc. Mas fora essa situação, acredito que essa carência incentiva muito mais a criatividade dos artistas que precisam se virar com o que têm em mãos e creio que as bandas sul-americanas não tem absolutamente nada a dever às bandas da Europa e dos Estados Unidos.
Quanto tempo vocês levaram para fazer “El fino arte de la venganza” e quais são as diferenças dele para o primeiro disco? Mudou algo no comportamento do grupo?
Demoramos quase um ano para terminarmos o último CD. Foi tanto tempo porque fizemos uma pré-produção de dois meses e ficamos bastante tranqüilos e relaxados quanto a todo o processo de gravação. Além disso, nos dedicamos a experimentar bastante dentro do estúdio e cremos que houve um grande avanço no que diz respeito aos vocais. Nesse último disco há muitos coros gravados, coisa que não ocorreu no primeiro trabalho. Fora isso, gravamos faixas “ao vivo”, como as três músicas acústicas, mas ainda acreditamos que há muita coisa para ser melhorada. Houve uma mudança na formação da banda, Joaquin Ferrer (baterista) e Andrés Barlesi (Baixo, Bandolim) começaram a tocar conosco no começo de 2007, portanto, a primeira participação deles foi com “El fino arte de la venganza”.

Além de Neil Young, Spaceman 3, Bob Dylan, Velvet Underground, quem mais influenciou o som do Los Alamos e o que vocês costumam escutar?
Escutamos vários estilos muito diferentes entre si… punk rock, hardcore, dub, reaggae, música africana, jazz, bluegrass…
Qual foi a banda que mais gostaram de dividir os palcos? E com quem gostariam de tocar junto?
Alguns grupos que mais gostamos de tocar foram Lee Scratch Perry, Calexico e Patti Smith. E nos encantaria dividir um show com alguém que lamentavelmente não nos acompanha mais… Fela Kuti (multiinstrumentista e gênio da música vindo da Nigéria. Faleceu em 1997).
O country é um estilo que já obteve bastante êxito, mas que há algum tempo não o mantém. Apesar de ser muito comum em países como os Estados Unidos, acaba sendo esquecido em grande parte do mundo. Como vocês observam o country hoje? É música datada como muita gente (inclusive críticos) fala?
É verdade que não é um tipo de música muito “moderna” e que teve sua origem no começo do século 20. Hoje existem grupos que adaptaram esse estilo, mas a verdade é que se trata de música do passado e que acaba sendo muito comum nos Estados Unidos por causa do tradicionalismo, do folclore local. Dentro do estilo, ouvimos Doc. Watson, Norman Blake, Earl Scruggs, John Fahey, Steve Earle, Elizabeth Cotten e outros.
Vocês tocaram nos mais diversos lugares. Qual é o próximo desafio para o Los Alamos? Poderemos ter algum show de vocês este ano no Brasil?
Nosso desafio é seguir gravando discos que durem um bom tempo e que dentro de alguns anos poderemos ouvir e nos orgulhar. Fazer discos bons que nos abram portas e nos permitam tocar nos lugares dos mais diferentes… que é uma das melhores coisas que pode acontecer com um músico. Esperamos poder ir ao Brasil sempre que pudermos, adoramos tocar aí. Sempre que fomos, nos trataram a mil maravilhas, tanto o público quanto os produtores dos festivais. Assim que nos convidarem, iremos na hora!! Quanto ao nosso grande desafio, será a turnê européia que vamos começar em breve, vai ser a nossa primeira naquele continente e temos ótimas expectativas. Agora estamos fazendo shows por Buenos Aires e pelo interior do País.
Voltando a falar de Brasil, me marcou muito a apresentação do Abril pro Rock, no Recife, o público estava bem animado…
Esse show foi a nossa primeira visita no Brasil, então estávamos um pouco nervosos pela reação do público, mas a verdade é que tudo correu muito bem. A recepção da platéia foi excelente e nós fomos muito bem em cima do palco, não estávamos acostumados a tocar emm lugares tão grandes, mas tudo foi realmente muito bom, cheio de adrenalina.
Vocês comentaram em uma entrevista que não é fácil vender discos nas lojas e que a solução seria vendê-los durante os shows, saída que muitas bandas também vêm adotando há algum tempo. Como vocês, com três anos de estrada, encaram a indústria da música?
Os discos do grupo são vendidos. Creio que com esse comentário, feito há algum tempo, apontamos a tendência mundial que estamos vivendo agora. No geral não fazemos grandes prensagens (fabricamos 2.000 discos de quando em quando) porque não contamos com recursos para maiores tiragens e a venda de CDs já não é mais um negócio rentável, principalmente porque a maioria das pessoas prefere baixá-los gratuitamente. Nós continuamos editando discos porque gostamos de fazer todo o processo “artesanal” de gravar, fazer a arte da capa e adoramos ver o trabalho terminado. Mas a realidade que não fazemos isso para ganhar dinheiro, sobrevivemos graças a nossos “outros trabalhos” paralelos. Ainda.
Por causa disso, a internet acaba sendo a principal maneira de “driblar” essas dificuldades?
Assim como a internet acabou com a indústria da música, abriu muitíssimas portas para muitas bandas. A informação chega com grande velocidade a todas as partes do mundo e isso permite que se conheça inúmeros grupos que de outra maneira seria impossível. A internet, sem duvida, nos ajudou muito para entrar em contato com gente como vocês que tem interesse em nosso trabalho, por exemplo. Hoje todo o nosso booking é feito por e-mails, pelo yousendit e o myspace.

