(Por Tarcio Fonseca, do Recife)
Se existe um festival meio difícil de definir, este é o No Ar: Coquetel Molotov. Principalmente o deste ano. Senão vejamos, em sua programação ele aposta em nomes pouco conhecidos da Suécia, coloca no mesmo palco uma banda de brega e, na sequência, um artista dominando sozinho o palco com um violino e pedais de guitarra, e ainda consegue agradar uma geração ligada na MTV e os que curtem rock progressivo e experimentalismos. E o mais legal é ver que a maioria está ali aberta para conhecer coisas novas. Acredito que, de todas as conquistas que Ana Garcia, Tathianna Nunes e Jarmeson de Lima já tiveram com o festival, criar esta mentalidade no público recifense foi o principal.
O festival deste ano conseguiu, pela primeira vez, esgotar seus ingressos antecipadamente. Dois dias antes da data, as entradas para os shows da sexta-feira, que contariam com Marcelo Camelo fechando a noite e estreando sua carreira solo, já não eram mais encontradas em qualquer ponto de venda. Para quem já acompanha o Molotov há quatro anos, foi bem estranho encontrar pessoas no dia do show dispostas a pagar duas ou até três vezes o valor normal do ingresso.
Mas vamos agora aos shows. Abrindo a sexta-feira na sala Cine UFPE, o público pôde conferir o Burro Morto, banda da Paraíba que faz um rock progressivo com percussão e uma aura que logo remete aos anos 70. Até no visual os caras parecem que foram tirados diretamente daquela época. Diferente dos últimos anos, mesmo na primeira apresentação a sala já estava razoavelmente cheia para conferir o ótimo show que os paraibanos fizeram.
Na sequência sobe ao palco A Banda do Joseph Tourton. Abro um parêntese pra dizer que fui uma das pessoas que pediu para que o Coquetel Molotov desse uma chance pros meninos. E quando falo meninos, são meninos mesmo. A banda aparenta ter uma média entre 18 e 20 anos, e parece que trouxe um ônibus lotado de colegas do colégio, cursinho ou do primeiro período da faculdade pra assistir ao show. Olhando ao redor, nunca tinha visto gente tão nova acompanhando o festival. No palco, os caras fazem um post rock bem influenciado por Tortoise, Explosions in the Sky e Hurtmold, só que num estágio ainda verde. A qualidade está lá, só falta agora amadurecê-la, mas eles ainda têm tempo de sobra pra isso.
Depois do Tourton chegou a vez da Bandini. A banda do Rio Grande do Norte não conseguiu convencer. Fazendo um indie rock chupado de bandas como Interpol e Joy Division, era difícil encontrar alguma característica própria no som dos caras. Até a postura do vocalista no palco lembrava trejeitos do Ian Curtis, fora que a voz, forçada a soar como a do lendário vocalista do Joy Division, não segurava a onda e desafinava. No geral, foi um show bastante passável.
Mas logo depois o festival se redimiu com o fantástico show do Guizado. A banda paulistana liderada por Guilherme Mendonça no trompete, teclados e samples apresentou um som instrumental forte que mescla rock, jazz, dub e funk, e contagiou a todos os presentes na sala, que a esta altura já estava lotada e quente como o inferno. Ao lado de Guilherme estão Rian Batista no baixo, Regis Damasceno na guitarra (que também tocam com o Cidadão Instigado) e Curumim (que recentemente lançou em seu projeto solo o ótimo disco Japan Pop Show) na bateria. Com tanta gente talentosa assim é bem difícil sair algo ruim.
Indo para o teatro da UFPE, a primeira apresentação foi a da recifense Julia Says. A banda, composta por Pauliño na guitarra, sintetizadores e vocal, e Anthony Diego na bateria e programações, é um daqueles casos de ame ou odeie. No meu caso, estou muito mais inclinado para o odeie. A idéia de um eletro rock barulhento e pesado é boa, mas acho que eles não conseguem (ainda) executá-la bem. Fora que a voz do Pauliño não é das melhores e tem um sotaque pernambucano muito forte. Apesar disso, os caras produziram muito bem o show, com vídeos rolando em um telão ao fundo do palco, e tiveram uma boa recepção e reação do público.
O espaço depois seria do Vanguart, mas a banda cancelou seu show faltando menos de 48h para o festival. Coube ao Cidadão Instigado tomar o seu lugar. E, cá entre nós, essa foi uma ótima troca. Primeiro que Cidadão Instigado já é uma banda muito mais interessante que o Vanguart. Depois que os caras detonaram no show. Fernando Catatau é um dos melhores vocalista/letrista/instrumentista de sua geração, e conduz com maestria o rock com altos teores de brega “a la Reginaldo Rossi” que o Cidadão Instigado executa. Teve até casal dançando agarradinho perto do palco as músicas mais dor de cotovelo da banda.
A vez agora era da Suécia com o Shout Out Louds e uma reflexão veio logo a minha cabeça na segunda música dos caras. Por que, afinal, recifenses têm que dar tanto crédito a bandas estrangeiras que não são nada de mais? Só porque estão vindo de fora do Brasil? Da Europa? A SOL é a típica banda que faz o mesmo tipo de som que centenas de outras. O vocalista soa como Robert Smith do Cure enquanto o resto da banda segue tocando algo entre o que o próprio Cure fazia e o que bandas como Strokes fazem hoje. Resumindo, banda sem personalidade e sem nome, mas que agrada o público pelos motivos mais errados possíveis, como o pensamento provinciano.
A noite era indiscutivelmente dele. Toda a espera e ansiedade de um teatro lotado de gente foi recompensada por um show impecável do ex-Los Hermanos. Marcelo Camelo subiu ao palco com apenas um banquinho e um violão para iniciar a primeira apresentação de seu disco Sou. Estava instaurada a catarse dos órfãos do Los Hermanos. Na segunda música o cenário já se completava com o Hurtmold, banda que acompanhará Camelo em sua turnê e que considero a melhor em atividade no Brasil. Era incrível ver ao vivo as, já boas, composições do Camelo receberem os arranjos do Hurtmold. E eu nem tinha gostado das músicas quando escutei o disco, mas ao vivo elas funcionam muito bem.

Mallu, emocionada, e Camelo
Carismático e visivelmente emocionado, Camelo agradeceu várias vezes ao público recifense e marcou ainda mais gols num jogo que já estava ganho com declarações como “tinha que ser aqui, tinha que ser hoje, tinha que ser com vocês” se referindo ao início oficial da sua carreira solo. Além das músicas do Sou (disco lançado há menos de duas semanas, mas que já foi cantado inteiro pela platéia) Camelo ainda tocou algumas da sua época de Hermano e chamou ao palco uma convidada que injetou uma dose a mais de emoção à apresentação, Mallu Magalhães. Logo que entra em cena para cantar “Janta” em dueto, Mallu desaba no choro no ombro de Camelo e mal consegue segurar as lágrimas e o violão até sair do palco. No bis, Camelo vai e coloca de novo a menina pra chorar tocando “Tchubaruba”, música dela que a fez correr novamente para o palco para cantar junto.
Finalizando a noite, Marcelo Camelo e Hurtmold tocaram ainda Copacabana, marchinha de Carnaval que provavelmente se tornará o maior hit desde início de carreira solo do barbudo que começa a assinar definitivamente seu nome entre os maiores cantores e compositores da história da música brasileira.



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[...] Tarcio Fonseca relata a comoção Mallu Magalhães, o experimentalismo de Akin e o simpático Peter, Bjorn & Jonh, além de comentar o sabor da pizza do Teatro da UFPE. Você confere a cobertura do 1º dia aqui. [...]