
Tarcio Fonseca relata a comoção Mallu Magalhães, o experimentalismo de Akin e o simpático Peter, Bjorn & Jonh, além de comentar o sabor da pizza do Teatro da UFPE. As fotos são de Caroline Bittencourt. Você confere a cobertura do 1º dia aqui.
O segundo dia do festival No Ar: Coquetel Molotov não teve a mesma comoção do primeiro, mas isso já era algo esperado. Na escalação do sábado não houve nenhum artista já consagrado em terras brasileiras para atrair um grande público específico. A que chegou mais perto disso foi Mallu Magalhães, que fez com que o Teatro da UFPE recebesse um público de faixa etária abaixo do que o festival normalmente recebe. Dava pra encontrar meninos e meninas de 13 ou 14 anos na frente do palco durante o show da pequena revelação do “folk brasileiro” (?!?).
Como já virou costume, a Sala Cine PE apresentou shows bem legais e novas propostas que fogem do lugar comum da música atual. Numa comparação direta entre os dois espaços do festival, a Sala Cine PE consegue, quase sempre, sair com mais pontos nos quesitos qualidade e criatividade.
Abrindo os shows da noite, com um atraso de quase duas horas do horário marcado, tivemos a Pocilga Deluxe. A banda é o novo projeto de André Balaio, (ex)vocalista do Paulo Francis Vai Pro o Céu, icônico grupo pernambucano que ganhou destaque no Recife (e Brasil) durante os anos 90, chegando até a receber um prêmio no VMB 98. Assim como o Paulo Francis VPC, a Pocilga também segue uma linha irônica e sarcástica nas letras e postura. A banda faz um rock com boas doses de pop e vinho francês barato para pagar de parisiense arrogante. Mas tudo com muito bom humor e segurança na parte musical. Boa banda, bom show.
Após Paris sair de cena, surgem os super-heróis. Zeca Viana & Onomatopéia Bum criaram um clima lúdico casando som e imagem para apresentar seu trabalho. Zeca (que toca bateria na Volver) e as irmãs Sofia e Maíra Egito entraram no palco fantasiados como heróis e recriaram todo o clima mágico da música dos anos 60 tendo Beatles e Arnaldo Baptista como claras influências. Todas as músicas eram, basicamente, composições de teclado e voz envoltas numa aura infantil. As projeções de vídeo com desenhos, mímica e pinturas reforçavam esse lado. É bom destacar que o Zeca tem uma ótima voz, e as irmãs Egito nos backing vocals também cumprem um bom papel. Participou também do show Domingos Sávio, da banda Monodecks, que tocou guitarra e flauta e somou ainda mais a mistura certa que Zeca inventou dessa vez.
Enfrentando problemas no vôo até Recife, Akin foi um dos principais motivos do atraso da sala Cine PE no segundo dia. Mas o cara compensou e se desculpou fazendo um ótimo show ao lado de membros do Hurtmold e do trompetista Rob Mazurek do São Paulo (e Chicago) Underground. A mistura é meio difícil de entender sem escutar. Akin é um rapper, Hurtmold é uma banda de música (post rock?) instrumental e experimental e Mazurek vem da escola do free jazz. No final, o lado hip hop do Akin acaba prevalecendo, mas as bases, efeitos e arranjos dos outros músicos elevam o resultado final a níveis muito acima do que se tem criado para o gênero ultimamente. Bom para o público e bom para o Akin, que, na realidade, é um rapper apenas mediano de letras críticas que não saem muito de um padrão já visto em vários outros artistas.
O último show da salinha foi da dupla sueca Club 8. Esse foi complicado… Depois da espera de quase uma hora, problemas técnicos e indecisão por parte dos artistas e organização que não sabiam se deixavam o público de pé ou sentado, a Club 8 sobe ao palco quase que ao mesmo tempo em que Catarina (Dee Jah) começava sua apresentação no Teatro da UFPE. No meio da indecisão de qual show assistir, só vi duas músicas da Club 8, as quais achei fraquinhas, e saí da Sala Cine PE com o pensamento de que não iria perder muita coisa. Me pareceu mais um destes folks bonitos e bem cantados de voz, violão e teclado, mas que acaba não somando muita coisa. Se a banda completa tivesse vindo ao festival, quem sabe, o resultado fosse mais legal.
Saindo da sala para o teatro, acabei passando mais tempo do que deveria no hall comendo um pedaço de pizza, que, por sinal, tava muito boa, e tomando uma Coca. Cheguei quase no final do show da Catarina e só assisti duas músicas. O que me pareceu é que ela estava meio deslocada naquele lugar, apesar da boa recepção do público. Catarina, usando ainda o Dee Jah, ganhou fama como DJ nas festas descoladas de Olinda tocando, essencialmente, música latina, brega e techno brega. Em sua carreira solo ela passeia pelos mesmos territórios e injeta ironia na receita. Pelo pouco que ouvi, foi tipo de som que não funcionou comigo. Não tenho mais o que dizer.
Na sequência, subiu ao palco o violinista canadense Owen Pallett. Pallet já fez contribuições ao lado de bandas cultuadas da nova geração como Arcade Fire e Beirut, mas se apresentou absolutamente sozinho no No Ar. Numa apresentação que conquistou a platéia, Owen mostrou um controle absoluto do seu instrumento e criatividade na hora de utilizá-lo juntamente com pedais de efeito, simulando a presença de uma banda inteira. Ele tocava e gravava ao vivo trechos das músicas (que podiam ser notas normais nas cordas ou percussão realizada batendo no próprio violino), e depois rodava estes trechos gravados, sobrepondo uns aos outros e tocando e cantando por cima deles. Uma idéia legal e que fez com que muita gente saísse do teatro considerando-o um gênio. Eu não tiro os méritos do cara, mas, lá pela terceira ou quarta música, fiquei entediado e comecei a achar tudo muito parecido. Se eu tivesse saído e voltado 20 minutos depois ao teatro ficaria com a impressão de que ele estaria tocando a mesma canção.
Tenho que admitir que estava bem curioso em relação ao show da Mallu Magalhães. Acho muito interessante essa ascensão dela tocando um tipo de som não muito comum no Brasil e se comportando, agindo e falando como uma menina até mais nova que seus poucos 16 anos. Esperava que ela cativasse o público do teatro com sua “meiguice e fofura”, mas isso não aconteceu. A apresentação foi bastante burocrática e até mesmo fria, com Mallu falando e interagindo pouco com a platéia. Até no momento em que chamou o Marcelo Camelo para cantar consigo no palco ela se conteve mais que no dia anterior e não desabou no choro. No repertório, além de tocar seus micro-sucessos J1 (a música do papapapapaaa) e Tchubaruba, ela ainda mostrou algumas músicas que vão entrar no seu disco e tirou os covers já esperados de Bob Dylan e Johnny Cash. Um problema que eu e algumas pessoas com que falei notaram foi a falta de sintonia da Mallu com sua banda. É como se ela estivesse numa frequência ou querendo fazer algo diferente do que eles estavam fazendo. Vai ver ela funcione melhor sozinha cantando e tocando seu violão e sua gaita. O caso é que o show foi bem morno.
A “banda do assobio” entrou no palco fazendo mais barulho do que eu esperava. Bem mais barulho. A apresentação dos suecos Peter Bjorn and John me impressionou. Eu só tinha escutado a Young Folks e achava que a banda era apenas aquilo. Estava enganado. Eles colocaram o som do teatro muito mais alto do que o dos outros shows e apresentaram um rock com boa pegada, bem executado e barulhento. Além disso, eles ainda têm uma presença de palco muito boa e empolgam. Até a Young Folks (a do assobio) perde sua aura açucarada ao vivo. No final ainda rolou um momento Sonic Youth com guitarra sendo arranhada contra pedestal de microfone e instrumentos sendo jogados ao chão e arrastados pelos cabos. Bom show e boa finalização para a edição 2008 do festival independente mais estabilizado de Pernambuco e um dos que mais ganha prestígio em todo Brasil.