sub som

O que você esperava dos Strokes?

Posted in álbum, música by Bruno Boghossian on 15 março, 2011

The Strokes The Vaccines
The Strokes, The Vaccines e umas palavras sobre a música

As guitarrinhas da banda inglesa The Vaccines só se fizeram ouvir essa semana porque, há dez anos, os Strokes lançaram um disco mal-ajambrado que moldou a maneira como eu e você ouvimos música hoje. E hoje, no entanto, o mesmo quinteto nova-iorquino que estourou com a ingênua ‘Last nite’ tenta se afastar dos riffs repetitivos e do som sujo que tinha se tornado a marca de um novo gênero ‘rock’ que eles supostamente haviam ajudado a fundar.

Com o tempo, a música muda, o nosso gosto musical muda e o que se chama de mainstream muda. Algumas bandas mudam seus sons e outras continuam baseadas na mesma fórmula – ou porque esse é o estilo delas ou porque querem continuar vendendo produtos e fazendo shows lotados. Qual delas parece mais legítima? Será que, quando se fala de música, nós queremos ouvir sons novos ou só queremos ‘novidades’?

Os Strokes vêm mudando de estilo há dois álbuns – e isso ficou óbvio no último disco da banda, ‘Angles’, que vazou domingo na internet. Eles não se transformaram por coragem, pra apostar num som de vanguarda ou pra vender discos. O novo disco dos Strokes só é do jeito que é porque o vocalista Julian Casablancas mergulhou numa egotrip eletro-oitentista no ano passado, quando resolveu lançar seu primeiro disco solo. É simples assim: uma viagem criativa que tomou conta do cara.

Não é que o ato de mudar tenha sido ruim, mas o resultado foi um erro. Os primeiros versos de ‘Machu Picchu’, a faixa que abre o disco, podem fazer qualquer um querer desistir de ouvir o que vem pela frente. A canção é uma sucessão de arranjos eletrônicos banais, riffs de guitarra repetitivos e um vocal um tanto prepotente, o oposto do estilo angustiado mas despreocupado que fez de ‘Last Nite’ um hit em 2001.

O curioso desse disco é que mesmo as faixas que mantiveram o DNA da banda têm uma pegada muito mais pop, como é o caso de ‘Under the cover of darkness’ (o hit nato do álbum) e ‘Gratisfaction’. O estilo lo-fi do grupo ficou pra trás, com um som mais bem produzido, mas eles mantiveram os mesmos solos simples e as mesmas letras com temas pós-adolescentes.

O que me incomodou de verdade foi que a incursão da banda nos campos do eletropop é superficial ao extremo. ‘Two kinds of happiness’ pode ser confundida com uma faixa ruim do Duran Duran. As repetições propositalmente incômodas de ‘You’re so right’ deram origem a uma ‘Take it or leave it’ piorada. E ‘Taken for a fool’ é mais uma aposta equivocada no estilo-videogame (você acha que o universo seria bom o suficiente para impedir uma faixa que parece ter influências do último disco do MGMT até topar com isso).

É claro que os Strokes não precisam se manter os mesmos para sempre, mas nem toda mudança é bem feita. No caso desse disco, não foi. Sem o currículo que a banda tem, esse álbum daria de cara na porta de qualquer gravadora e não geraria mais que uns 300 hits no MySpace.

Acho que é por isso que às vezes a gente se sente mais confortável ao ouvir uma banda nova que ao ver a transformação de uma banda que a gente já conhece. Nessa onda, o disco que o Vaccines soltou essa semana (‘What did you expect from the Vaccines?’) é uma diversão, apesar de ser um som absolutamente irrelevante. É uma banda que rima ‘F. Scott Fitzgerald’ com ‘Morning Herald’ em um foguete de 1 minuto e 21 segundos que abre seu disco de estreia, a faixa ‘Wreckin’ bar (ra ra ra)’.

Em comparação, o grupo parece esbanjar uma juventude legítima, que os Strokes obviamente não têm mais. São mais despreocupados e mais instintivos, apesar de menos sofisticados. Esse tema é evidente nas letras das estimulantes-porém-simplistas ‘Wetsuit’ (‘If at some point we all succumb / For goodness sake let us be young’ e ‘Put a wetsuit on / Grow your hair out long / Put a t-shirt on / Do me wrong, do me wrong, do me wrong’) e ‘Family friend’ (‘You wanna get young but you’re just getting older / And you had a fun summer but it’s suddenly colder’).

Mais um ponto a favor dos Vaccines é que eles bebem de fontes menos arriscadas que a música eletrônica dos anos 1980. Apesar de fazerem referências a Ramones em ‘Norgaard’, a sonoridade da banda está fincada no gênero desnecessariamente batizado de pós-britpop, que tinha como referência bandas como The Hives, The Vines e até os americanos Strokes. Nessa área, ‘What did you expect from the Vaccines?’ tem ecos de Kaiser Chiefs (em ‘If you wanna’) e Glasvegas (em ‘Under your thumb’).

Ouvir The Vaccines ajuda a entender The Strokes hoje. Mais que uma série de referências e um oceano que separam as duas bandas, dá pra entender que o que afasta os nova-iorquinos do som original é a maturidade – e ficou claro que o som de uma banda moderninha como os Strokes não resiste inabalado a uma década inteira.

The Strokes | ‘Angles’ | 1.0 / 5
The Vaccines | ‘What did you expect from the Vaccines?’ | 2.5 / 5

Anúncios